domingo, 19 de fevereiro de 2012


"Há quanto tempo desejo seu beijo

Molhado de maracujá...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar"




Pode me faltar tudo na vida: arroz, feijão e pão; pode me faltar manteiga e tudo mais não faz falta não. Só não quero me falte a danada da Olivia.Sorrir para um olhar que está ao lado é quase como mergulhar bem fundo naquelas brisas frescas e tolas que perambulam pelos jardins de contos de fadas. Seu olhar.  O som da cuíca quase ensurdecia meus sonetos ao pé do seu ouvido. Devaneia, Olivia. Sussurra. Brisa, Olivia.
Hoje o samba vai sair procurando você. Procurando seus olhos que me fogem, ou me procuram. Procurando você, Olivia. Procurando alívio.Mas eu prometo não deixar que o povo todo te admire, como eu sempre lhe fazia, deixando que fosses uma cabrocha de alta classe.  Nada de vestidos dourados. Nada de encontrar todos estes outros olhares.

Encontra o meu, Olivia. Quero voltar a marcar meu samba na cadência dos seus passos.

Me alivia. 



sábado, 18 de fevereiro de 2012


"Quero ser a cicatriz
Risonha e corrosiva
Marcada a frio
Ferro e fogo
Em carne viva..."




Ainda bem, Olivia. Ainda bem que quando eu pude segurar o ardor do fogo em mim eu consegui. Eu já havia previsto a rapidez do nosso fogo em vc, feita inteira de palha. Mas eu sou madeira, Olivia. Eu sou madeira que fica marcada. Demora um pouco mais para queimar e a marca é um pouco maior, mas apaga. Na palha o fogo consome inteira  e é tudo muito rápido. 
Me dê tempo de respirar, Olivia, e eu voltarei a pensar em vc.
Me dê tempo de te olhar nos olhos e me encare com o mesmo ardor da tua palha, e eu voltarei a pensar em você, Olivia.
Madeira queimada causa um estrago danado, mas eu fui forte, sabia? 
Olivia; eu sempre soube que você, como que espiã, ficaria atrás da porta. “Sem carinho, sem coberta. No tapete atrás da porta”. Eai você reclamaria, baixinho para ngm ouvir,  sua solidão e sussurraria súplicas. Porque você é mais sensível do que aparenta ser, Olivia. E eu e sua mãe já sabemos disso.
 Eu cederia, mas agora eu era ferro, Olivia. "Agora eu era herói", Olivia. Eu resistiria  mais que outras vezes, e ainda mais que a palha.
Eu tenho medo, agora. Por favor, preste atenção: ferro esquenta e, se muito quente, quando vc encosta fere. 


Devir

Olho-te:
e no fixar dos meus olhos te descrevo. Não digo, por necessidade, aquilo que tu és. Digo-te, o que me és. E dispo-te das coisas previas fazendo de ti, minha. Minha criação. 

Sinto-te: 
emocionalmente, descrevo teus momentos. Metamorfoseio tua superfície, teu riso, teu suor, o arrepio dos teus pelos. Descrevo o vento no teu cabelo. Desvendo-te. 

Vendo-te: 
e de olhos cegos, te carrego para um universo só teu, onde para mim, sou só tua, não a única e inequivocamente. Nada, de fato é único. Nenhuma umidade é só. Nenhum algo que me soe calor o é, sem outra parte. Nada de humano é só e simplesmente inatural. Eu, tu, nós. 

Todas: 
tão especiais em nossas coincidências mil. Milhões e milhões de Olívias. Lhes descrevo para o meu Alívio. Lhes escrevo para o meu lirismo.


"Só sei que canto de sede dos teus lábios"

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Os dragões não conhecem o paraíso, onde tudo acontece perfeito e nada dói nem cintila ou ofega, numa eterna monotonia de pacífica falsidade. Seu paraíso é o conflito, nunca a harmonia


Senti meus pés crescendo quando vi Olivia. É, ela entrou na minha vida sem dizer porque, com seu mau humor e um vestido rodadinho com all star sem meias, era verão e a sua atitude me deixou extasiada. Me senti desafiada para um jogo novo e imprevisível, eu precisava dar significado.
Descobri a doçura da vida nas curvas de Olivia e a beleza das acácias em floração. É impossível esquecer daquele verão em que o campo floriu. E ao andar até a casa de Olivia, por muitas vezes fechei meus olhos e senti apenas o cheiro das acácias silvestres.
Bons ventos me lavaram aos braços de Olivia, sempre dona de si. Ela foi o nascer do sol, para mim. Foi com ela que sorri quando nasci para o mundo...
O campo serenado, as vozes do ribeirão até hoje lembram as noites em que Dionísio protegeu nosso segredo no silencio daquela casa “árvore”, no campo, insone pelo barulho da nossa cama.
Noites de tempestade também me lembram Olivia. Seu gênio forte e sua maneira de levantar o nariz. Ela também me lembra as noites mais assustadoras em que eu estive solitária, em meu quarto quadrado, feito uma lagartixa dentro da caixa. Tormentas me lembram Olívia. Vinho me lembra Olívia.
A-v-e-n-t-u-r-a...
Segredos sempre guardaram a nossa relação.Olívia foi a minha primeira amora, eu que não sabia o que era amar...
Antes de Olívia, em vales longínquos existiram Wagner, Otávios, Augustos. Alguns homens brutos, os quais, nunca tive muito tato nem nada que beirasse um amor. Ninguém despertou meu dragão antes deOlívia. E o fogo de Dionísio, ascendido por ela bebendo vinho, apagamos, nós duas, com chuvas de pedras e tempestades, mas ainda restou sentimento e bem querer. Para Olívia “somos movidas por uma paixão eterna que nos aproxima e nos repele sem nunca mudar”.
Nossa relação nunca foi compromisso, foi além e nunca fizemos questão de por um nome. Não fui amante, namorada, não somente amiga, nunca fui da família, apesar de por muitas vezes me sentir um pouco de cada coisa. Nem eu nem Olívia nos importamos muito com rótulos, somente com aquele da geleia de morango que nos lambuzamos no ultimo café da manhã do nosso amor.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012



Helena sorri e se move de um jeito só seu quando acorda. E aquarela um vestidinho rodado: verde, rosa e amarelo, em frente ao espelho. Nos olhos, vermelho. No ombro carrega o mundo numa sacolinha. Nesta, tudo é possível guardar. Mais do que tudo, ela é arquiteta de si e, em si, as possibilidades são mil ou incalculáveis.
Helena constrói seu mundo com pequenos retalhos, gravuras e purpurina fruta-cor que Olívia deixa escapulir. E na primavera sua presença tem frescor de hortelã, mas a brevidade de um suspiro...
Então, noutro dia, ela parece nem se importar com o sol ou a maresia no seu cabelo, saltita e desenha nuvens de algodão na beira do rio, depois as come em pensamento. Com as amigas no fim da tarde é feliz.
Já, no verão, Helena muda suas cores: vermelho, branco e verde escuro. Sapatinho pontudo para combinar. Cartinhas na mão e luzinhas no olhar. Luzinhas de natal e crianças para presentear “temos muitas, é só adotar!”. Recolhe presente. Compra doces. Enche balão. “Hoje não tenho tempo!”. Entrega presente. “A Claudia não veio =(”. É o último dia. “Estou cansada”. Faz muito calor. Aiiiiiiiiiiiiiii!
 Ano Novo, vida nova, reformulada. Tudo branco e um pincel para aquarelar! “Elefante colorido.” Que cor usar?
Helena é feita de todas as cores e cachinhos curtos. Usa então um shortinho retro e batuca um Cartola como carioca no fundo de uma vasilha de sentimentos.
Olivia ri com os olhos e muda o  mundo de Helena que gira tentando manter os pés no chão, mas "a gente na vida foi feito pra voar".

domingo, 5 de fevereiro de 2012


Olivia é mais um retalho de mim.
Mais um pedacinho da minha ins-piração diária. Alivio noturno, mesmo que com esse olhar soturno.
 Eu te costurei do  lado mais bonito do meu corpo e cuidei de bordar com açúcar e afeto.
Antes de qualquer melodia eu ensaiei a letra. Antes de saber em que compasso entrarias eu tinha os momentos exatos de silêncio  para você, Olivia.
Eu te sabia minha antes de você, Olivia.
Eu soube a vida antes de você.
E esse medo todo da entrega eu também previa.
Preste atenção, Olivia,  os receios estão encaixados perto das “pausas” da nossa música.  Pausamos.  Inspiramos, expiramos. Fôlego, pânico.  E seguimos nossa música.
Cantarolemos nossa poesia, verso a verso. Até a redondilha final.  Não nos preocupemos e "let it be".
Eu finjo descaso com o nosso amor e nossa costura, Olivia, mas como eu temo não conseguir cortar a linha dessa pedaço de loucura em mim.  
Como eu temo não chegar ao fim desse soneto com um “Mas que seja infinito enquanto dure”.
É que essa maneira de focar seu olhar longe e me deixar no segundo plano dos teus olhos me fez pensar 588 vezes a cada vez que eu passava a agulha. Mas agora já costurei.

A  tesoura está aí, bem nas tuas mãos, Olivia.

Primeiro foram seus olhos. Aliás, que clichê foi nosso amor, desde o início, Olívia. 
O sentimento, ainda desconhecido, me focalizava pelo cristalino , confundia  tua íris com a cor da minha alma e na retina  embaralhavam-se letras.  O verso ainda se formaria e os sonetos passariam a ter seu nome.
Eu, que sempre quis  surpreender. Sempre quis  qualquer coisa que fugisse ao convencional. Mas, Olívia, nós  não conseguimos fugir do “lugar comum” -mais um vez-, e nosso amor esteve escrito em sonetos. Nada de  melodias bachianas.
Eu poderia te encontrar durante um espetáculo de balé, ou numa sala de cinema em que estivessem exibindo  filmes da pornochanchada,  mas escolhemos o lugar de encontros cotidianos e  eu te esperei escondendo meu encantamento por ti  atrás de uma pequena  xícara de café expresso.
Não sei se o rubor era só psicológico mas parecia que o  ligeiro  acelerar de batimentos que acarretava um tremer das mãos, seria meu estado mais normal a partir daquele dia.